A transformação do corretor de seguros diante das mudanças tecnológicas, regulatórias e de comportamento do consumidor esteve no centro dos debates do “Conexão Futuro Seguro”, realizado nesta terça-feira (26 de maio), pela Fenacor, em parceria com a Escola de Negócios e Seguros (ENS) e o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento dos Corretores de Seguros (IBDCOR). Com auditório lotado na ENS, em São Paulo, e mais de 3,4 mil inscritos acompanhando a programação online, o encontro consolidou-se como um dos principais fóruns de atualização e inovação do mercado de seguros.
Na abertura do evento, o presidente da Fenacor, Armando Vergílio, destacou o lançamento oficial do PMDIS (Plano Diretor do Mercado da Intermediação de Seguros), apresentado como um guia estratégico para orientar a atuação dos corretores de seguros nos próximos anos. Segundo ele, o plano nasce para responder às profundas mudanças provocadas pela tecnologia, pela evolução do consumidor e pelas transformações regulatórias que já impactam o mercado.
“O PMDIS é uma bússola para o futuro”, afirmou Armando Vergílio, ao defender que o corretor precisa evoluir de um modelo focado exclusivamente na intermediação para uma atuação mais consultiva, especializada e estratégica. “Quem continuar do mesmo jeito vai ficar para trás”, alertou.
Durante sua apresentação, o presidente da Fenacor apontou quatro forças que já vêm redesenhando o mercado de seguros: a Inteligência Artificial, o novo perfil do consumidor, a transformação do ambiente concorrencial e a necessidade de qualificação permanente. Na avaliação dele, a IA deve ser encarada como ferramenta de apoio, permitindo ao corretor dedicar mais tempo às atividades em que o fator humano continua insubstituível, como aconselhamento, relacionamento e acolhimento ao segurado, especialmente nos momentos de sinistro.
Armando também chamou atenção para a necessidade de diversificação da carteira de negócios e da ampliação do conhecimento técnico dos profissionais. Segundo ele, o modelo do “corretor despachante” já não atende às necessidades do mercado atual, que exige profissionais preparados para atuar como consultores de proteção e gestão de riscos. “Generalista não chega em 2035”, afirmou.
Logo após a abertura, o Connection Talk – Construindo Pontes para o Futuro reuniu algumas das principais lideranças do setor para debater os impactos da tecnologia, da regulação e das mudanças estruturais do mercado de seguros. O painel foi mediado pelo presidente do Sincor-SP, Boris Ber, que conduziu as discussões com foco nos desafios reais enfrentados pelos corretores e no equilíbrio entre inovação, relacionamento humano e segurança jurídica.
Ao abrir o debate, Boris destacou a importância de compreender de que forma a Inteligência Artificial poderá ser incorporada à rotina do corretor sem comprometer o principal diferencial da atividade: a relação de confiança com o cliente. O presidente do Sincor-SP também provocou reflexões sobre o uso ético da tecnologia, os avanços regulatórios e a necessidade de um ambiente mais seguro para o crescimento sustentável do mercado. Durante a mediação, Boris reforçou ainda que o avanço tecnológico precisa caminhar ao lado da valorização do relacionamento humano, principal diferencial do corretor de seguros em um mercado cada vez mais digitalizado.
Entre os debatedores esteve o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, que destacou que praticamente todas as seguradoras brasileiras já possuem projetos voltados ao uso da Inteligência Artificial. Apesar do avanço acelerado da tecnologia, ele reforçou que não há risco de substituição da atuação humana.
“Quem não utilizar Inteligência Artificial ficará fora do mercado”, alertou Dyogo, ao comparar o atual momento à revolução provocada pelos computadores nas décadas de 1970 e 1980. Segundo ele, embora ainda esteja em estágio inicial, a IA já demonstra grande potencial para transformar processos, relacionamento e eficiência operacional no mercado de seguros. “Vai existir IA negociando com IA, mas sempre haverá um humano por trás”, afirmou.
Também debatedor do painel, o superintendente da Susep, Alessandro Octaviani, destacou a importância do diálogo constante entre regulador, seguradoras e entidades representativas para garantir segurança jurídica e evolução sustentável ao mercado. Segundo ele, o fortalecimento do setor depende diretamente da qualidade regulatória e da construção coletiva de soluções.
Ao abordar o avanço das associações de proteção patrimonial mutualista, Octaviani explicou que a Susep vem trabalhando para estabelecer regras claras de competição, solvência, provisionamento e proteção ao consumidor. Também chamou atenção para os impactos crescentes das mudanças climáticas, revelando a criação de um grupo de trabalho voltado à construção de um seguro catástrofe adequado à realidade brasileira. “Sem o corretor de seguros, não haverá aumento da resiliência do Brasil”, afirmou o superintendente, ao reforçar o papel do profissional como elo essencial para ampliar a cultura de proteção no País.
Também integrante do Connection Talk, o presidente da Capemisa Seguradora, Jorge Andrade ressaltou que o avanço regulatório e o uso da Inteligência Artificial devem contribuir para um mercado mais transparente e eficiente. Na visão do executivo, a tecnologia tende a liberar o corretor das atividades operacionais, permitindo maior dedicação ao relacionamento e à consultoria.
“O corretor hoje mudou. Ele é um consultor. Identifica problemas, faz o diagnóstico e leva ao cliente exatamente aquilo de que ele necessita”, afirmou Jorge Andrade, ao destacar que ainda existe grande desconhecimento da população sobre os seguros disponíveis e suas possibilidades de personalização. Para ele, ampliar a cultura do seguro depende diretamente da capacidade do corretor de demonstrar soluções aderentes à realidade financeira e às necessidades de cada consumidor.
Já o presidente da Tokio Marine Seguradora, José Adalberto Ferrara, trouxe uma abordagem prática sobre o uso da Inteligência Artificial no dia a dia do corretor e das seguradoras. Segundo ele, a companhia já desenvolveu um programa de capacitação em IA voltado aos profissionais parceiros, com foco em prospecção, vendas cruzadas e melhor aproveitamento da carteira existente.
Ferrara revelou que mais de 1,3 mil corretores já concluíram o treinamento oferecido gratuitamente pela seguradora e relatou que profissionais experientes vêm demonstrando forte interesse pela ferramenta, justamente pela possibilidade de ampliar resultados. “O corretor tem que olhar a IA não como uma palavra, mas como potencial e oportunidade de crescimento”, afirmou.
O executivo também ressaltou que a Inteligência Artificial não substitui o fator humano, mas amplia a capacidade de atuação do profissional. “A IA não vai ser mais inteligente do que o ser humano. O que ela faz é nivelar conhecimento e acelerar processos. Quem cria, evolui e constrói continua sendo a mente humana”, pontuou, incentivando os corretores a estudarem e incorporarem a tecnologia à rotina dos negócios.
Na sequência, a programação avançou para o painel “PDMIS – A Ponte para o Futuro do Corretor de Seguros”, dedicado a aprofundar os caminhos apontados pelo Plano Diretor do Mercado da Intermediação de Seguros para os próximos anos.
A apresentação do painel foi conduzida pelo economista e professor Claudio Contador, coordenador responsável pelo PMDIS, que detalhou os estudos e análises que fundamentaram o plano. Segundo ele, o levantamento identificou, ao final de 2024, um mercado de intermediação estimado em aproximadamente R$ 65 bilhões, evidenciando tanto a relevância econômica da atividade corretora quanto seu potencial de expansão.
Na avaliação de Claudio Contador, o corretor de seguros atravessa uma importante transformação estrutural. “Os novos consumidores valorizam o digital, querem flexibilidade e agilidade, mas ainda precisam de alguém para aconselhar e prestar consultoria. O corretor está evoluindo para ser um curador de decisões”, afirmou, ao defender uma atuação mais estratégica, especializada e orientada à consultoria.
Mediado por Augusto Coelho, o debate contou ainda com a participação do presidente da Fenacor, Armando Vergílio, e do presidente da ENS, Lucas Vergílio, que reforçaram a importância da qualificação contínua, da adaptação tecnológica e do fortalecimento do corretor como consultor de proteção e protagonista do mercado de seguros.
Encerrando a programação, o professor Celso Brandão ministrou a palestra “IA – Os impactos da Inteligência Artificial na vida do Corretor de Seguros”, trazendo uma visão prática sobre como a tecnologia já vem transformando a rotina dos profissionais do setor.
Segundo Brandão, a automação tem permitido ao corretor realizar tarefas e análises antes inviáveis sem apoio tecnológico, ampliando produtividade e eficiência comercial. “A IA é a quarta revolução industrial, pois traz evolução na produtividade e provoca forte impacto nos negócios”, afirmou, ao defender que a tecnologia seja encarada como aliada do corretor, potencializando sua capacidade de atuação e relacionamento com clientes.
Ao reunir lideranças do mercado, especialistas e representantes das principais entidades do setor, o Conexão Futuro Seguro reforçou a importância da preparação contínua do corretor diante das transformações do mercado de seguros, consolidando-se como um espaço estratégico de debate sobre inovação, qualificação e futuro da atividade.