Por Antonio Penteado Mendonça*
A guerra no Oriente Médio vai aumentar o preço dos seguros ao redor do mundo. A lógica é simples, maior o risco, maior o preço para fazer frente ao potencial de sinistros.
As seguradoras trabalham com tábuas estatísticas e cálculos atuariais que lhes permitem calcular o preço de seus seguros com exatidão. A companhia não sabe para quem vai pagar a indenização, mas sabe quantos sinistros deve ter em um determinado período e qual o valor médio deles, minimizando a margem de erro com a aplicação de um adicional, baseado numa curva para os desvios para cima que poderiam impactar seu resultado.
A experiência das seguradoras é calcada no passado. Nos números que impactam seu negócio, no valor puro do preço do seguro e nos carregamentos necessários para fazer frente a operacionalização do negócio. Com base nisso a seguradora chega a um preço médio, ao qual ela acrescenta ou subtrai os valores necessários ao equilíbrio de cada segurado em relação ao todo, composto por um fundo formado pela contribuição proporcional de cada integrante em relação a cada risco.
Neste momento, o Oriente Médio é o ponto fora da curva, o desconhecido que ameaça o negócio da seguradora, em primeiro lugar pelos efeitos diretos e indiretos causados pela redução da oferta de petróleo, gás e insumos agrícolas ao redor do planeta, e, em segundo lugar, pelo risco direto de navios e cargas (basicamente petróleo) serem atingidos por ataques de qualquer das partes envolvidas.
No segundo caso, o que se vê é o aumento direto do preço do seguro. As seguradoras estão recalculando seus preços levando em conta o potencial de risco decorrente da guerra. Como este aumento é significativo, o mercado irá, com certeza, diluí-lo pelas demais carteiras e apólices, em contratos de seguros e resseguros ao redor do mundo, além dos seguros de portos, instalações empresariais, transporte e embarcações nas áreas de risco no Oriente Médio. Ou seja, em função dos custos diretos da guerra os seguros em geral custarão mais caro e este aumento será rateado ao redor do planeta, especialmente nos contratos de resseguros.
Mas há outra variável que interfere no preço do seguro. A redução da atividade econômica e do aumento da inflação já estão precificados e terão impacto nos preços de bens e serviços em todos os países, inclusive os que não têm relação direta com a guerra. Ninguém tem dúvida, os preços irão subir. E isso também impacta o preço do seguro.
Por exemplo, ainda que precificados com a mesma taxa, o seguro de um carro popular é mais barato do que o seguro de um carro de luxo. A razão é simples: o carro de luxo é mais caro que o carro popular.
É isso que vai acontecer. O preço do seguro de produtos mais caros é mais caro porque a multiplicação da taxa pelo preço dará um resultado mais elevado. E este a mais no preço vai impactar o preço final do bem ou serviço, já que ele será adicionado aos custos que o compõem.
É a cobra comendo o próprio rabo, este desenho é inexorável. O seguro ao redor do mundo vai custar mais caro, o que vai encarecer ainda mais o preço final de produtos e serviços, inclusive no Brasil.
* Antonio Penteado Mendonça é escritor, advogado sócio da Penteado Mendonça e Char, formado pela USP, com especialização em Direito Ambiental pelo DSE, na Alemanha, e em Seguros pela FGV-Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Também é professor, palestrante, escritor e ex-presidente da Academia Paulista de Letras.
Fonte: Estadão