O Fórum Mário Petrelli de Fomento do Mercado de Seguros, Previdência, Capitalização e Resseguros realizou, em 19 de agosto, em São Paulo, a segunda edição do Conversas do Fórum. Com o tema “O futuro do seguro frente às catástrofes e aos eventos climáticos”, o encontro reuniu especialistas e lideranças do mercado de seguros na Escola de Negócios e Seguros (ENS), com transmissão on-line.
Os participantes discutiram a criação de uma política nacional de financiamento de desastres, a integração entre governo e iniciativa privada, o desenvolvimento de seguros paramétricos, a melhoria dos dados, o fortalecimento da prevenção e o papel dos corretores na conscientização da sociedade.
Na abertura, Marco Antônio Gonçalves, diretor-presidente do Fórum Mário Petrelli, lembrou que as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul provocaram prejuízos superiores a R$ 89 bilhões, dos quais aproximadamente R$ 6 bilhões estavam cobertos por seguros. “O nosso tema macro no Fórum é uma sociedade mais protegida e o papel do mercado de seguros. Precisamos falar e dialogar com a sociedade para entender o que ela realmente necessita”, afirmou.
Experiência mexicana inspira caminhos para o Brasil
A palestra de abertura foi conduzida por Dario Luna Pra, líder regional de Soluções Estratégicas de Resseguro da Lockton Re para a América Latina e o Caribe. Um dos responsáveis pela estratégia de gestão de riscos de desastres do Governo Federal do México, ele apresentou os aprendizados que podem servir de referência para o Brasil.
Dados mostrados pelo especialista apontam que a média anual de pessoas afetadas por desastres no Brasil nesta década é sete vezes maior do que na anterior. As perdas médias anuais provocadas por eventos naturais equivalem a cerca de 0,35% do Produto Interno Bruto e podem aumentar com o agravamento das mudanças climáticas.
Dario explicou que, sem seguros, o Governo Federal atua como segurador de última instância, redirecionando recursos de programas sociais e de infraestrutura para emergências e reconstruções. No México, a política de proteção combina reservas orçamentárias, seguros paramétricos e títulos vinculados a riscos catastróficos, alcançando cerca de US$ 1,2 bilhão em cobertura anual.
Os seguros paramétricos permitem pagamentos mais rápidos, acionados por indicadores previamente definidos, como volume de chuva, intensidade de terremotos ou duração de secas. Entretanto, exigem modelos confiáveis, dados de qualidade e comunicação clara. “Um modelo ou um produto paramétrico mal construído pode comprometer a credibilidade e dificultar o caminho para as boas soluções”, alertou.
Para o Brasil, Dario recomendou priorizar riscos como as inundações e investir em conhecimento, dados e modelagem. “É uma questão de foco e vontade, de começar a construir bloco por bloco”, resumiu.
Proposta prevê fundo e compartilhamento de riscos
O primeiro painel foi mediado por Robert Bittar, vice-presidente da ENS e da Fenacor, e reuniu Ariel Couto, CEO da MDS Brasil e Americas Regional Manager da Brokerslink; Henrique Brandão Júnior, presidente do Conselho do Grupo Assure e vice-presidente da Fenacor; Rodrigo Botti, Country Head da Lockton Re; e Dario Luna Pra.
Bittar relembrou desastres ocorridos no Paraná, em Blumenau, na Região Serrana do Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, destacando que suas consequências econômicas e sociais permanecem por gerações. Para ele, o mercado de seguros pode assumir uma parcela maior dos riscos, desde que medidas públicas de prevenção também sejam implementadas. O executivo defendeu ainda a inclusão de determinadas coberturas climáticas no seguro residencial.
Rodrigo Botti apresentou uma proposta desenvolvida no Fórum para a criação de uma estrutura nacional de proteção contra catástrofes. O modelo prevê um fundo, a divisão do Brasil em regiões de risco, a participação de seguradoras selecionadas por processos públicos e transparentes e uma resseguradora central responsável pela gestão dos recursos.
A proposta compartilharia responsabilidades entre seguradoras, resseguradoras, mercado de capitais e governo. “Esse é um projeto que vai exigir que seguradoras, resseguradoras, corretores e brokers trabalhem juntos. Para sair do papel, o setor precisa desenvolver uma cultura maior de cooperação”, afirmou.
Ariel Couto observou que alguns produtos já oferecem coberturas climáticas, mas ainda há uma grande lacuna de proteção. Após as enchentes no Rio Grande do Sul, foram identificadas até mesmo entre grandes empresas apólices com limites insuficientes. Ele também ressaltou a baixa penetração do seguro rural e a necessidade de ampliar a cultura de proteção.
Henrique Brandão Júnior classificou o cenário como desafio e oportunidade para os corretores. “Precisamos transformar esse assunto em uma pauta política e, depois, em uma solução de proteção efetiva. A distribuição tem acesso a esses lugares e pode contribuir para levar informação e cobertura a quem precisa”, ressaltou.
Prevenção deve vir antes da transferência do risco
Mediado pelo advogado e jornalista Antonio Penteado Mendonça, o segundo painel reuniu Paulo Botti, membro do Conselho Administrativo da Enova Holding; Camila Calais, advogada e integrante do Fórum; e Nilton Molina, membro do Conselho Consultivo da MAG Seguros.
Com base em estudo do Insurance Development Forum, Paulo Botti afirmou que o futuro do seguro depende da redução dos riscos. Sem investimentos em prevenção, adaptação e infraestrutura resiliente, algumas exposições poderão se tornar intransferíveis. “Se os riscos catastróficos não forem reduzidos, não será possível transferi-los”, alertou. Ele também destacou a importância dos modelos probabilísticos, dos dados locais e das Letras de Risco de Seguro.
Antonio Penteado Mendonça reforçou que o seguro deve ser destinado aos riscos que não puderem ser eliminados ou reduzidos. A indenização compensa financeiramente uma perda, mas não impede o desastre. Por isso, ocupações em áreas de risco, falta de manutenção da infraestrutura e ausência de políticas públicas não podem ser solucionadas apenas por apólices.
Camila Calais abordou os desafios jurídicos e regulatórios e ressaltou a necessidade de coleta e regionalização dos dados. Segundo ela, algumas localidades podem alcançar níveis de exposição capazes de reduzir o interesse privado pela cobertura, exigindo a participação do Estado na construção de soluções.
Nilton Molina relacionou as catástrofes climáticas a outros grandes riscos sociais, como pandemias e envelhecimento populacional. Ele recordou que o mercado segurador brasileiro pagou cerca de 156 mil indenizações relacionadas à Covid-19, totalizando aproximadamente R$ 7 bilhões. Para Molina, o País precisa se antecipar aos riscos anunciados e discutir formas sustentáveis de financiar a proteção social.
No encerramento, Marco Antônio Gonçalves defendeu a união de toda a cadeia e a criação de produtos acessíveis. “Nós precisamos de políticas de Estado, e não apenas de políticas de governo. Precisamos trabalhar a prevenção, os dados, a distribuição e a mitigação para apresentar proteção efetiva à sociedade”, concluiu.